domingo, 19 maio 2013 23:12

Patrono

Escrito por 

Jaime Cortesão, um Nome e um Exemplo

Ançã (1884) – Lisboa (1960)

Jaime Cortesão

 

1. Feliz a hora em que, no calor perfumado da Revolução de Abril, os professores da Escola decidiram baptizá-la com o nome insigne de Jaime Cortesão, em substituição do de Sidónio Pais, colocando-se, assim, sob a égide do seu magistério cívico e cultural, genuinamente democrático, humanista e português.

Foi, antes de mais, um gesto histórico de profundo significado simbólico, que marca uma ruptura com o passado e rasga as avenidas do futuro. De facto, o nome de Sidónio Pais (Coimbra, 1872 – Lisboa, 1918), figura controversa em extremo, está associado ao autoritarismo conservador, antidemocrático, messiânico e já pré-fascizante. Com ele se prende estreitamente o regime salazarista, de triste e funesta memória.

Jaime Cortesão era o contrário de tudo isto. Homem que aliava a força de carácter e das convicções à defesa intransigente da democracia, acreditava profundamente nos homens e na liberdade, identificando-se plenamente com os valores progressistas de um Portugal novo, finalmente levantado do chão pela reconquista de uma cidadania pela qual sempre se bateu.

Considero, pois, divinamente inspirada a ideia de dar à nossa Escola o nome de um ilustre professor, uma das figuras mais proeminentes da cultura do séc.  XX e, além disso, irradiando um calor humano e uma bondade que a todos encantava. (Fernando Namora)

 

2. Mas quem foi este homem tão admirado por uns e perseguido e odiado por outros?

Apenas uns dados fundamentais: nasceu em Ançã em 1884, estudou em Coimbra, mas foi novo para o Porto. O ideal republicano e democrático que muito cedo abraçou, levou-o à cidade invicta, onde com outros espíritos semelhantes ao seu, combateu pelo triunfo da causa da República, por ela sofrendo a primeira prisão.

Entretanto, a sua alma de poeta desentranhava em versos de rara beleza. Publica, então, no círculo do movimento da Renascença Portuguesa (1912), de que foi co-fundador, vários livros de poesia, de que destaco apenas Glória Humilde (1914) em que aparece o verso emblemático de toda a sua vida: “Eu canto o meu Amor e a minha Terra”. Entusiasmado com a criatividade poética do Povo, organizou o Cancioneiro Popular e Cantigas do Povo para as escolas, obras integradas já no programa pedagógico e cultural da República e que tem em Jaime Cortesão um dos principais animadores. Era mister aproximar a instrução e a cultura, básica, média e superior, das camadas desprotegidas do Povo, de modo a fazer dele o protagonista da sua História. Nasceram, então, (1912) em várias cidades, as Universidades Livres e Populares, as quais, além das outras iniciativas, organizaram cursos especiais nocturnos para a actividade comercial e que, no ano de 1913/14, foram frequentados por 252 pessoas.

Havia disciplinas como “Higiene Infantil”, “Electricidade”, Química”, Contabilidade”, Escrituração Comercial”, e até a Língua Russa… As lições de “História” e “Literatura” eram dadas gratuitamente por Jaime Cortesão, que, entretanto, abandonara o exercício da medicina para se dedicar exclusivamente ao magistério no Liceu.

Esse desejo de difundir cultura e saber não o abandonou nos anos em que foi Director da Biblioteca Nacional, (1919-1972), onde reuniu um escol de intelectuais, responsável pela revista Seara Nova (1921), que depressa se tornou num instrumento de renovação das ideias políticas, artísticas e culturais na sociedade portuguesa. Data de 1921 o principio da publicação das suas Cartas à Mocidade, e que são uma admirável síntese pedagógica de lições de amor à Pátria e à Cultura e de estímulo ao desenvolvimento dos autênticos valores cívicos e morais.

Como historiador, Jaime Cortesão conquistou o respeito e o louvor da comunidade cientifica, pelo rigor objectivo da investigação, pela interpretação criativa dos factos e documentos e pela elegância da sua expressão verbal. Fez da investigação histórica a que se dedicou com alma e paixão, uma lição de civismo – diz-nos Urbano Tavares Rodrigues. Quis mostrar às potências europeias que Portugal, enxovalhado pelo Ultimato Inglês de 1890, protagonizou uma das aventuras épicas mais determinantes da História da Humanidade – a aventura do conhecimento, descobrindo os mundos desconhecidos, encobertos pelo mistério e ignorância.

E daí nasceram os volumes sobre Descobrimentos Portugueses (sécs. XIV-XV-XVI) que traçam num tom objectivo e exaltante, a epopeia dos lusos no mar, e os volumes consagrados ao movimento pioneiro e heróico das “Bandeiras” (sécs. XVII e XVIII)  que enaltecem no mesmo tom documentado e rigoroso a epopeia dos portugueses nos sertões do Brasil.

Perpassam, nestes textos, como notou F. Piteira Santos, “o colorido de Fernão Lopes, a solene dignidade de um Herculano e os fulgores cintilantes de um Oliveira Martins”.

 

3. Finalmente, um combatente pela liberdade. Homem de gabinete e de arquivo, mas também de acção na rua e em campo aberto, pugnou sempre pela democracia, que considerava a mola real da História, e só tinha por inimigos os inimigos da liberdade. Que o prenderam e exilaram. Sem dó nem piedade.

Preso na Penitenciária de Coimbra às ordens de Sidónio, (1918) quando ainda convalescente de uma doença grave, apanhada na frente de batalha (Grande Guerra, 14-18); fugindo para Espanha, depois do movimento revolucionário em que participara (Fev. 1927) contra a ditadura; conspirando com outros exilados contra o poder instalado em Portugal, cada vez mais amordaçado; nova fuga para França, durante o bombardeamento de Barcelona pela aviação de Franco, em que, ao lado da sua esposa, de igual estirpe heróica, e de outros refugiados, atravessa a pé os Pirinéus cobertos de neve, carregando a mala dos manuscritos, mas perdendo grande parte dos ficheiros, anos de trabalho enterrados no gelo.

Depois, o regresso a Portugal, em 1940, e nova prisão em Peniche, onde dá lições de História aos presos; e, finalmente, a expulsão para o Brasil, com um passaporte manchado com a vergonhosa designação de “banido”.  São 17 longos anos de ausência e saudade, longe da Pátria que servira e tanto amava!

Torna ao “ninho seu paterno” em 1957 e as amarguras não acabam! Lá estava ainda o ditador de garras afiadas! Que, em 1958, o manda de novo prender. Tinha Jaime Cortesão 74 anos de idade! Fez-se alarido e gritaria no mundo culto e civilizado contra tão ignóbil injustiça. Liberto, passou ainda dois anos de estudo e paixão pela sua querida História de Portugal.

Em Agosto de 1960, sucumbindo à doença, deixa este mundo um homem bom e generoso, que a posterioridade haveria de consagrar como um herói do saber e um mártir da liberdade. Que o seu exemplo viva e frutifique!

 

Coimbra, Janeiro de 1999

 

João de Oliveira Lopes

Prof. da Escola Secundária de Jaime Cortesão

Modificado em domingo, 19 maio 2013 23:41
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